quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Rouba, mas faz!

Alguém já disse que o artista de talento é ‘influenciado’ pelos seus ídolos. Já o gênio vai lá e rouba as ideias dos outros na cara dura.

O fato é que quando o assunto é música pop, não são poucos os casos de pilhagens envolvendo gente graúda que teve que responder nos tribunais por plágio.

Um dos sujeitos mais roubados na história do rock, por exemplo, foi Chuck Berry, o cara que praticamente inventou essa porra toda. Por sorte, Chuck não levava desaforo pra casa.

Dois dos embates mais célebres colocaram os Beach Boys e até os Beatles no banco dos réus. No primeiro caso, Brian Wilson e cia copiaram ‘Sweet Little Sixteen’ inteira pra escrever ‘Surfin’ in USA’. Berry acionou os advogados e seu nome foi creditado como coautor da faixa.



Sinal de alerta
Anos depois, John Lennon abriria o disco ‘Abbey Road’ dos Beatles com ‘Come Together’, e o sinal de alerta de Chuck acendeu ao perceber similaridades com a sua ‘You Can’t Catch Me’, lançada na década anterior.

Numa espécie de ‘acordo de cavalheiros’, Lennon regravou a música em seu álbum de covers ‘Rock’n´Roll’, lançado em 1975. Chuck faturou horrores em direitos autorais.



Inconsciente
Numa entrevista à Playboy nos anos 1980, Paul McCartney disse que o Fab Four vivia roubando as ideias dos outros sem o menor peso na consciência. Parece que eles levaram a prática para suas carreiras-solo.

George Harrison, por exemplo, teve que desembolsar uma grana alta por ‘plágio inconsciente’ de ‘He’s So Fine’ do grupo vocal Chiffons. Ouça a música e veja de onde surgiu um dos maiores sucessos de Harrison: ‘My Sweet Lord’.



Bucaneiros
Aliás, os ingleses são verdadeiros bucaneiros neste ramo. Willie Dixon, parceiro de Chuck Berry nos anos 1950, também foi pilhado por outra banda britânica: o Led Zeppelin. Seu nome acabou creditado no clássico ‘Whole Lotta Love’ pela incrível semelhança com ‘You Need Love’, lançada em 1963 pelo bluesman Muddy Waters.





Segundo os detratores, o Led é um caso à parte quando o assunto é plágio. A banda recentemente foi acusada de roubar os acordes iniciais de ‘Taurus’, do grupo psicodélico Spirit, para escrever ‘Stairway to Heaven’. O processo não deu em nada.



Taj Mahal
Aqui no Brasil, um dos casos mais famosos de plágio colocou Rod Stewart e Jorge Benjor em lados opostos. Rod chupou ‘Taj Mahal’ descaradamente para a sua ‘D’ya know I’m sexy’. Jorge processou, mas garante que até hoje não viu a cor da grana.



Lista grande
A lista é grande e temos ainda casos envolvendo Kraftwerk X Afrika Bambataa (‘Trans Europe Express’/’Planet Rock’), Michael Jackson X Manu Dibango (‘Wanna Be Starting Something/’Soul Makossa’), Queen X Vanilla Ice (‘Under Pressure’/’Ice ice Baby'), The Verve X Rolling Stones (‘Bitter Sweet Simphony’/’The Last Time’), Radiohead X The Hollies (‘Creep’/’The Air That I Breathe’) e por ai vai.

Curioso é que existem ainda exemplos de plágios descarados que, por camaradagem ou desapego mesmo, não resultaram em nada.

Neste item, podemos incluir o Nirvana que surrupiou os riffs iniciais de ‘Eighties’ do Killing Joke, na música ‘Come as you are’, e os Strokes que tomaram emprestado ‘American Girl’ de Tom Petty, para o hit ‘Last Nite’.




E claro, a recente polêmica entre Black Sabbath e a nossa Vanusa, em que os fãs da cantora brasileira juram que os pais do heavy metal roubaram ‘What to Do’ para comporem ‘Sabbath Bloody Sabbath’. Ambas foram lançadas em 1973, porém a canção de Vanusa saiu meses antes.



Coincidência?

N. da R.: Para mais informações, tem uma reportagem bem legal que a repórter Daniela Fescina escreveu para a (recém-falecida) revista Mundo Estranho. Aqui: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/os-10-plagios-mais-famosos-da-musica/




quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Há 40 anos, nascia o pós-punk




Gosto de dizer que o melhor do punk foi o pós-punk. Se bandas como Ramones e Sex Pistols deram um basta aos excessos que estavam matando o rock e renovaram o estilo por meio de um som primitivo, o futuro ainda era incerto. Sim, porque o lema dessa turma era o ‘No future for you’.

Porém, uma nova geração de bandas resolveu transformar a urgência punk em algo mais  poético, sombrio e experimental. Nascia o pós-punk. O ano zero desse fenômeno foi 1978, quando cabeças de chave do movimento punk como Johnny Rotten, líder do Sex Pistols, resolveram mudar o jogo.

Nevermind
Um ano depois de lançar o explosivo ‘Nevermind the Bollocks’, Rotten abandonou os Sex Pistols, voltou a usar seu sobrenome de batismo, Lydon, montou o PIL (Public Image Ltd.) e gravou um disco surpreendente: ‘Public Image – First Issue’.

Foi o bastante para que o sujeito fosse tratado como Judas. Porém, ali estavam os elementos chaves do movimento pós-punk: krautrock, baixo marcante, câmara de eco, guitarras entupidas de efeitos e – suprema heresia – músicas imensas.  


Manchester
Enquanto isso, no mesmo ano, numa cidade feia e industrial do norte da Inglaterra, outra revolução se pronunciava. Um jornalista chamado Tony Wilson montava a gravadora Factory e transformava Manchester na Meca do pós-punk.

Wilson decidiu criar o selo com o amigo Alan Erasmus depois de ver um show dos Sex Pistols, uniu-se a outro maluco, o genial produtor Martin Hannett, e contratou bandas locais como o Joy Division, Durutti Collumn e A Certain Radio.


Por toda ilha
Manchester é um capitulo a parte nessa história toda. De lá ainda saíram bandas como Buzzcocks, Magazine, The Fall, The Smiths, New Order, James e a turma da fase ‘Madchester’: Happy Mondays, Charlattans, Stone Roses e, anos depois, o Oasis.

 Enquanto isso, o pós-punk se espalhava por toda Inglaterra nos anos 1980 e deu ao mundo grupos como The Cure, Bauhaus, Echo & The Bunnymen, Gang of Four e Killing Joke. E, a não ser o Gang of Four, todas essas bandas se formaram (adivinhem!) em 1978. Realmente um ano que marcou o rock mundial.



quinta-feira, 28 de junho de 2018

GAAX: Lo-Fi 100% tropical





Dia desses, recebi uma mensagem pelo inbox em que o sujeito dizia ter visto e curtido o blog graças a um post sobre o californiano (e despirocado) Ariel Pink. Foi algo que também incentivou meu interlocutor, que é músico, a enviar seu trabalho.

Nesse momento, descobri quem era o carioca Felipe Oliveira e seu projeto indie chamado GAAX. O que me deixou mais curioso foi o fato de Felipe fazer parte de um dos selos mais legais do Brasil: o Transfusão Noise Records, lá do Rio de Janeiro.  

Comandado pelo grão-mestre do lo-fi tupiniquim Lê Almeida, a gravadora lançou um monte de gente bacana que tem em comum o apreço pela psicodelia dos anos 90 e 2000, o pedal fuzz e letras em bom português.

O disco mais recente de Lê, ‘Todas as Brisas’, é uma delicia e foi eleito por este colunista como um dos melhores de 2016.

Campo dos Sonhos
Ouvi dois discos do GAAX e gostei muito, principalmente ‘Campo dos Sonhos’, de 2015, produzido por Lê Almeida. Ali estão escancaradas as principais influências de Felipe: Guided By Voices, Pavement e o próprio Lê que também toca bateria na banda.

O segundo, ‘Senhor da Ciência’, com 25 (!) músicas, foi registrado num gravadorzinho Taskam de quatro canais e é lo-fi puro. Tosco e maluco, parece uma mistura de Daniel Johnston e Captain Beefheart.

“O Gaax veio como uma forma de manifestar sentimentos, ideias do processo criativo e da vida”, diz Felipe, em entrevista por e-mail.

 Ele conta que em 2013, tinha uma banda chamada Suite Parque junto com o Lê Almeida e Evandro Fernandez (Carpete Florido). Na época, Lê deixou a tal mesa Tascam de quatro canais com ele, a qual começou a utilizar para compor e gravar com mais frequência.

“Essas músicas já não entravam bem no Suite Parque, foi quando surgiu a necessidade do Gaax existir”, informa.


Incentivo
Felipe diz que desde o início Lê Almeida o incentivou. O resultado foi a gravação, produção e lançamento de seus discos pela Transfusão Noise. Se não bastasse, o dono do selo ainda toca bateria na banda.

“Trabalhar com a Transfusao é muito motivador para mim, tanto pela questão de afinidade sonora quanto pela liberdade que tenho com eles. A galera é super amiga e se preocupa um com os outros. Isso torna uma energia linda nas gravações e nos shows”, garante.

Mas por causa da crise que afeta o Rio de Janeiro, o músico veio para Ribeirão Preto onde vive há dois anos com a esposa. E, além das praias ensolaradas, deixou para trás os companheiros de banda.

Mas isso não desanimou Felipe que já sonha em lançar o quarto disco da banda em breve.
“Estou com musicas prontas para gravar desde o ano passado, mas não tive tempo de ir no Rio ainda. Iremos gravar no Escritório, que é a base da Transfusão Noise Records”,  diz.

Quem viver verá (e ouvirá)! Por enquanto, ouça 'Campo dos Sonhos' na integra no link abaixo...





sexta-feira, 1 de junho de 2018

Forró de respeito!


Um festival de música feito no interior paulista, no muque, sem leis de incentivo ou dinheiro público chega a sua 28ª edição com uma programação invejável. O Forró da Lua Cheia, sediado numa fazenda da pacata Altinópolis, região de Ribeirão Preto (SP), e realizado nesse final de semana, é um exemplo de empreendedorismo e longevidade.

Criado pelo empresário e fazendeiro Edgard Meirelles nos longínquos anos 1980, o que era para ser uma festa entre amigos, tornou-se um dos maiores eventos culturais do Brasil fora-do-eixo.

A programação desse ano é a melhor de todas as suas edições. Confira aí: Vanguart, Nação Zumbi, Emicida, Baiana Sound System, Rincon Sapiencia, Bixiga 70 e o veterano Walter Franco são alguns dos nomes que vão subir ao palco principal em quatro dias de festa.

Eu mesmo já toquei lá duas ou três e vezes com o Motormama e foi um dos poucos lugares deste país em que recebi o cachê com antecedência. 





Mudança
 O evento só melhorou com o tempo. Numa mudança de proposta artística, seus organizadores conseguiram se distanciar do ranço riponga e saudosista de outros anos para investir em novos nomes relevantes da cena nacional.

Claro que os veteranos continuam a dar o ar de sua graça, mas que outro festival traz o lendário e, infelizmente, esquecido Walter Franco como atração de destaque?


Não é pouca coisa, principalmente numa época de crise em que muitos eventos de música dita alternativa encerraram suas atividades ou mudaram a ‘proposta’. Um bom exemplo é o (até então) celebrado Tim Festival que anunciou uma guinada de 360 graus para uma vertente mais ‘popular’. E dá-lhe sertanejo e axé.

Vida longa ao Forró da Lua Cheia!



sexta-feira, 4 de maio de 2018

Quando Money Mark apertou o botão!





Em sua fanpage, Money Mark nos avisa que seu disco ‘Push the Button’ completa hoje (sexta, 4 de maio) 20 anos. Rapaz, eu bem me lembro do momento em que comprei esse disco numa das lojas da Galeria do Rock, em Éssepê. Foi como achar um alfinete no palheiro.

Para quem não sabe, Money Mark foi o tecladista dos Beastie Boys nos melhores momentos do trio nova-iorquino. Ele está presente em clássicos como ‘Chech Your Head’ e ‘Ill Comunication’, só pra dizer o mínimo.

Porém, em 1998, o sujeito resolveu lançar ao mundo um pérola do ecletismo soul-indie low-fi, o tal ‘Push the Button’. Traduzindo: Aperte o botão.

Era o segundo álbum de Mark Ramos Nikita que contou com um time de feras do underground de NY como colaboradores. Nomes como Sean Lennon, filho do homem, Russel Simmins, batera da Jon Spencer Blues Explosion, e o produtor brasileiro Mario Caldato Jr. dão o ar de suas graças nessa obra-prima. 


Aula

Money Mark dá uma aula de como é possível fazer um disco simples e, ao mesmo tempo, criativamente explosivo. Apesar de sua ligação com o hip-hop,  o músico não se limita a nenhum gênero em especial em ‘Push the Button’.

Há espaço para o indie, para o funk-soul, para a eletrônica vintage e até mesmo para o folk-rock em temas como a linda ‘Rock in the Rain’. Aqui em casa, essa música tornou-se praticamente um hino.

Entre as canções de trabalho, está a sacolejante ‘Maybe I’m Dead’ que até ganhou clipe na MTV, e ‘Hand in your Head’. Tente ouvi-las sem um sorriso no rosto.

É incrível imaginar que Money Mark está praticamente esquecido pelo público indie. Em sua página no Facebook, apenas alguns fãs lhe parabenizaram pelas duas décadas de ‘Push the Button’. Pois aqui deixo minha homenagem a esse grande álbum. Congrats, dude. 






quarta-feira, 21 de março de 2018

Surfer Rosa chega aos 30




Em 1988, eu estava prestes a entrar na faculdade e era um sujeito musicalmente radical. Num dia qualquer, li em algum lugar sobre uma banda de Boston (EUA) que estava se tornando a grande sensação do rock independente no planeta (na época, chamavam de ‘alternative rock’). O nome era Pixies...

A extinta revista Bizz então publicou uma resenha colocando ‘Surfer Rosa’ - o álbum de estreia do quarteto e que comemora 30 anos neste dia 21 de março - no topo do mundo. Por um milagre da natureza, a BMG Ariola lançou o disco por aqui.

Achei o vinil numa loja da Mesbla e comprei na hora. Quando cheguei em casa e coloquei aquela belezinha pra tocar na minha vitrola, entrei em estado de choque.

O baixo cavalar e a bateria zeppeliana de ‘Bone Machine’, a música que abria o disco, me deixou atordoado. Era como se a banda punk Husker Dü resolvesse fazer hard rock com versos surrealistas.

 “Eu estava conversando com um padre sobre beijinhos/ Ele me comprou um refrigerante/ E tentou me molestar no estacionamento’, dizia a letra escrita por Black Francis, gordinho freak e gênio dessa porra toda.  Lembre-se que anos depois, Boston, cidade católica, foi cenário do maior escândalo de pedofilia da história da igreja nos EUA.


Esquizofrenia
Depois seguem ‘Break My Body’, as insanas ‘Something Against You’ e ‘Broken Face’ e a magistral ‘Gigantic’, escrita e cantada lindamente pela baixista Kim Deal, que assinava ‘Mrs John Murphy’ à época. O lado A encerra com a ‘River Euphrates’, com a guitarra esquizofrênica de Joey Santiago surtando.

O lado B abre com ‘Where’s My Mind?’, hino dos desmiolados de todo o planeta. É uma daquelas músicas que coloca Black Francis entre os grandes do rock mundial. Influenciou praticamente todo o mundo indie dos anos 90. 

Aliás, ‘Surfer Rosa’ é uma espécie de Bíblia para quem quiser entender a música pré-internet. Kurt Cobain nunca escondeu sua paixão pelo disco e tudo o que ele aprendeu com o Pixies está em ‘Nevermind’.

David Bowie, que também adorava a banda de Boston e regravou 'Cactus' (segunda do lado B de 'Surfer Rosa'), ficou chocado quando ouviu ‘Smell Like Teen Spirit’ pela primeira vez. Para ele, uma cópia descarada da ”dinâmica Pixies”.

Polêmicas à parte, a influência do disco está presente em grupos como Weezer, Smashing Pumpkins, Radiohead, White Stripes e a deusa P.J. Harvey, só pra citar os mais famosos. O produtor do disco, o mal humorado Steve Albini, tornou-se uma espécie de Phil Spector da época e foi convidado a gravar um monte de gente, inclusive Nirvana.

De minha parte, o disco simplesmente mudou tudo. Foi graças a Surfer Rosa que passei a prestar a atenção em bandas como Led Zeppelin e Beach Boys. E foi ali que comecei a entender que era possível ser pop e maluco. Enfim, um clássico. 






quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O poder da sofrência


Que Anitta que nada! O maior fenômeno da música dita popular brasileira é uma gorducha de 24 anos nascida no Centro-Oeste. Direto de Cristianópolis, Goiás, Marilia Mendonça comprova que o que o brasileiro gosta mesmo é de uma boa canção de dor de cotovelo.

Faça as contas. Desde que Chitãozinho e Xororó gravaram ‘Fio de Cabelo’ em 1982, nunca mais a música sertaneja abandonou as paradas de sucesso no País. Desde então, o estilo deixou definitivamente o gueto em direção ao topo da cadeia alimentar da indústria fonográfica.

É um dos poucos gêneros que se renova quase que anualmente, atropelando modas, conceitos, críticas e crises inerentes ao nosso País. Por gerações, essa turma alimenta uma indústria gigantesca que deixa o rock, a MPB, o samba e o funk ostentação no chinelo.


Sem discursos
Agora, com Marilia e duplas como Maiara e Maraisa à frente, as mulheres ganham um novo papel numa cena até então dominada por machos de bota e chapéu. O feminejo mostra um outro lado do tal ‘empoderamento’.

Sem discursos sociológicos, bandeiras ou lacres, a sofrência feminina derruba preconceitos e estereótipos ao seu modo. Marilia está longe dos padrões de beleza de uma Barbie como Paula Fernandes, mas está pouco se lixando e, além de soltar a voz sem medo, é uma compositora de sucesso.

Politicamente correto
É incrível como a turma do politicamente correto esquece do sertanejo em seus discursos em defesa do gosto popular. O funk, por exemplo, é muitas vezes mais sexista e misógino que qualquer outro estilo, mas por ser música ‘da comunidade’, seus excessos são mais que legítimados.

Goste-se ou não, o sertanejo comercial é a trilha sonora do Brasil brasileiro. Tratá-lo como ‘modinha’ passageira é um erro tremendo. Está mais para um ‘modão’ mesmo, sem prazo de validade.

E feliz 2018 a todos!!!


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Júpiter e eu


Até a primeira metade dos anos 1990, a psicodelia made in Brasil estava fadada ao esquecimento. O último disco realmente relevante do gênero havia sido lançado pela banda Violeta de Outono em 1987.

Foi preciso que um sujeito lá de Porto Alegre criasse uma persona artística para trazer o estilo de volta para o cenário nacional. Flávio Basso, mais conhecido por seus trabalhos em grupos de rock adolescente como TNT e Cascaveletes, renascia como Júpiter Maçã.

Já no álbum de estréia, ‘A Sétima Efervescência’, Júpiter nos deixou de quatro com aquela mistura de Syd Barret, Roberto Carlos, Beatles e Mutantes. Uma obra-prima que completa 20 anos de existência.

Desde então a psicodelia foi redescoberta no Brasil. Eu mesmo fiquei literalmente acachapado com as músicas do disco. No final dos anos 1990, me sentia completamente perdido artisticamente e aquilo tornou-se uma referência pra mim.
  
Norte
‘A Sétima Efervescência’ foi um norte para meu projeto seguinte, a banda Motormama. Até hoje, ouvintes nos comparam com o rock gaúcho dos anos 2000. A resposta, claro, é a influência jupiteriana.

Conheci meu ídolo há uns 15 anos, quando a banda foi se apresentar pela primeira vez em Goiânia, numa festa pré-Bananada, um dos maiores festivais do Centro-Oeste.

Flavio, que na época sonhava com o mercado internacional e assinava Júpiter Apple, parecia um dândi flanando pelas ruas quentes de Goiânia. Abaixo, uma foto feita num boteco em Goiania, com Jupiter e sua banda, integrantes da Motormama e os organizadores do Festival Bananada, entre eles Fabricio Nobre e Léo Razuk. 



Poliglota
Para minha felicidade, ele assistiu ao nosso show e gostou muito. Nos disse: ‘Congratulations’, com sua mistura habitual de inglês, francês e ‘gauchês’. Nunca mais o vi. Vários discos depois, drogas, loucura, um DVD ao vivo e entristecido com os rumos de sua carreira, Flávio morreu sozinho em seu apartamento em PoA aos 47 anos.

Em sua homenagem, compus ‘Se o Mundo Desmoronar (Nunca Perca a Cabeça)’, música que encerra o disco recente do Motormama: ‘Fogos de Artifício’.

Se você, meu amigo, é um grande fã da neopsicodelia tropical de bandas como o Boogarins, que aliás se apresenta nesse sábado no Sesc de Ribeirão Preto (SP), agradeça a um sujeito chamado Flávio Basso, a.k.a, Júpiter Maçã. 



sábado, 9 de dezembro de 2017

Enquanto houver guitarras, há esperança



O rock agoniza, mas ainda encanta velhos corações que pulsam com eletricidade e distorção. Uma das bandas prediletas do blog, Les Deuxluxes, formada pela dupla canadense Anna Frances Myers e Etienne Barry, é a prova de que onde há guitarra, há esperança.

No caso deles são duas guitarras e um kit de bateria montado especialmente para que Etienne o toque somente com os pés. O rapaz é um verdadeiro malabarista.

A dupla encerra sua turnê no Brasil neste final de semana, com um show neste sábado no Rio de Janeiro e, de acordo com Etienne, uma apresentação surpresa em SP, talvez nesse domingo.

Ao vivo
Este que vos escreve conferiu a dupla em ação num estúdio de gravação em Americana (SP), o Édem Records. Eles abriram para o Autoramas, reis do garage pop nacional, e mesmo num local que ainda precisa se adaptar para dar uma estrutura digna para um show, mostraram que boa música se faz com pouco.

Tocaram para cerca de vinte a trinta pessoas durante 40 minutos. Tudo muito alto, mas bem executado e vibrante. Infelizmente a voz magnifica de Anna não estava nítida, mas a menina (que fala português!) é uma força da natureza e dominou o pequeno palco. Etienne é justamente o avesso. Um mestre zen em seu oficio, segurando a onda nos momentos mais complicados.  


Conterrâneos
É uma felicidade única ver esses dois jovens tão talentosos dedicarem-se a um gênero ‘fora de moda’ de forma determinada. Despencaram sozinhos de sua Montreal local para uma turnê sul-americana cheia de altos e baixos e não esmoreceram.  

São o avesso dos conterrâneos do Arcade Fire que também estão no Brasil, mas para alguns shows gigantescos com estrutura invejável. Porém, se o Arcade parece vive um momento de impasse criativo com o péssimo ‘Everything Now’, Les Deuxluxes segue firme e forte na cena garageira.

Foi  curioso vê-los ao lado dos amigos do Autoramas em Americana. O líder Gabriel Thomaz é um incansável batalhador da cena independente nacional e não dá sinais de cansaço.

Os shows do Les Deuxluxes no Brasil foram praticamente ignorados pela grande mídia local, o que é uma tremenda injustiça. Porque enquanto houver jovens como esses canadenses, a vida ainda faz sentido para os fãs de, como é mesmo nome, ah... rock.  


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Charles Manson, o psicopata pop


O que assusta mais? Saber que uma criatura como Charles Manson existiu ou descobrir que o sujeito ainda tinha admiradores mais de quatro décadas após seus crimes?

No dia em que Manson finalmente morreu, Daron Malakian, guitarrista da banda System of a Down, apareceu nas redes sociais defendendo seu ídolo, vestindo uma camiseta com o rosto do maluco estampada.

Levou chumbo e seu pedido de desculpas foi ainda mais tenebroso. “Pessoas talentosas às vezes fazem coisas ruins”, escreveu. Bom, sair por ai comandando assassinatos de gente inocente não é lá algo fácil de se perdoar.

Ódio
No caso de Manson, não há desculpas. Sua persona artística é discutivel e sua existência era baseada no caos, no ódio e no desejo de matar. Mas por uma série de questões, ele se tornou o psicopata mais famoso do mundo.

Desde os assassinatos da atriz Sharon Tate e do casal La Bianca em 1969, até sua morte, aos 83 anos, o cara virou referência para gerações de idiotas e até mesmo de rockstars como Axl Rose, que gravou música dele, Marylin Manson, por motivos óbvios, e Malakian.

Artista frustrado, despejou seu ódio a todos da indústria que lhe deram as costas comandando crimes hediondos. Aproveitou-se da onda hippie para atrair jovens desmiolados e criar uma seita: a Família Manson.


Polanski
Chamou a atenção até de Dennis Wilson, baterista dos Beach Boys, que quase caiu na lábia do sádico. Fã de Beatles e Beach Boys, escreveu uma série de músicas ruins que, décadas depois, foram ‘redescobertas’ pelas novas gerações.

Em sua autobiografia, o diretor Roman Polanski, viúvo de Sharon Tate, lembra que a época as investigações, ficou surpreso quando soube que os autores do crime eram aqueles ‘hippies’ que estavam acampados a poucos metros de sua casa.

O maior castigo para um sujeito como Manson seria seu total esquecimento. Mas isso nunca aconteceu. Filmes, livros, documentários e músicas de sua autoria foram lançados nos anos seguintes.Tornou-se uma celebridade da pior maneira.

Seitas
Além disso, seitas comandadas por assassinos e suicidas se alastraram pelos EUA e seu legado ainda nos assombra.

Os ‘natural born killers’ nunca vão deixar de existir, mas reverenciá-los é o tipo da coisa que demonstra que esse mundo está (ou sempre esteve) do avesso!!!   

Obs: Enquanto escrevo isso aqui, Quentin Tarantino dá início a produção de um filme que terá os assassinatos da família Manson como pano de fundo. Deus nos acude!!!


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O Brasil de João


Entre tantas noticias ruins desse Brasil varonil, a mais recente envolve um dos grandes nomes da música mundial. João Gilberto, aos 86 anos, está tão enrolado em dívidas e problemas de saúde que seus filhos mais velhos resolveram interditá-lo na Justiça.

Devendo milhões a um banco e sem condições psicológicas de tomar decisões, João, o herói/inventor da bossa nova, parece não pertencer mais a esse planeta.

João é de uma geração de ouro que colocou o Brasil nos trilhos da modernidade. Longe de exotismos e brejeirices, o baiano levou a música brasileira para um patamar único, universal e, ao mesmo tempo, muito particular.

Invenção
Costumo dizer que a bossa nova, mais do que um gênero, foi uma forma que João inventou de cantar e tocar samba. Nada se compara ao que ele fez. O sujeito mudou tudo de uma forma tão doce e minimalista que assusta pela sofisticação.

Intérprete de voz pequena e mãos precisas, o músico utilizou seus limites para criar uma constelação sonora. Entender sua música é compreender também que ‘less is more’, como certa vez disse Miles Davis.

O mundo de João não existe mais. Seus (poucos) amigos e contemporâneos já partiram e o Brasil de hoje parece não entender o seu legado.


Solidão
Excêntrico, beirando a maluquice, o baiano nunca foi um exemplo de simpatia e boas maneiras nos palcos. E sua incompatibilidade com a vida ordinária resultou em solidão e caos financeiro.

Nestes tempos sombrios e medíocres, chega a ser sintomático ver um ícone como ele sendo retratado como um velho moribundo.

O Brasil de ‘Chega de Saudade’ era o país do futuro, com JK, Niemeyer, João, Tom Jobim e Vinicius à frente. Passados quase 60 anos, confirmou ser a nação que vive um eterno romance de desilusão, como bem lembrou o escritor Milton Hatoum. E bem feito pra nós!


Tamo aqui!

Os melhores de um ano caótico!

Sim, gente amiga, Saturno Pop também organizou uma lista dos melhores do ano. A diferença é que em tempos virtuais, resolvemos resumir as es...

Saturno Pop is Alive